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“Posso falar da tarde que cai
E aos poucos deixa ver no céu a Lua
Que um dia eu te dei
Pra brilhar
Por onde você for
Me queira bem
Durma bem
Meu amor
Durma bem
Me queira bem
Meu Amor”
A Lua Que Eu Te Dei – Ivete Sangalo
E a lua virou a maior cúmplice dos meus mais verdadeiros sentimentos…
Sim! Ela lá em cima, iluminando a escuridão dos céus, consegue ser o meu refúgio no final do domingo, quando a volta para casa deixa uma pequena sensação de vazio no coração – sensação que, ao longo da semana, se transforma numa saudade incontrolável. É esta mesma lua que, enquanto serve de abrigo para São Jorge, preenche as minhas lacunas da distância física e traz alegria ao recordar o mais delicioso sorriso que existe na face da Terra. É a lua, a eterna inspiração dos corações apaixonados, quem me faz companhia, quando o sono hesita em chegar nas demoradas madrugadas de insônia.
Afinal, como dizia o poeta: “Hoje a lua despiu seu véu… E flutua a dormir no céu”. E, enquanto ela faz isso e cumpre sua obrigação, eu fico a suspirar por aqui, acreditando que o gato de Cheshire irá se completar e exibir seu rosto no meu céu.
Cena 20. 075 = Dançando Entre os Carros
“When the sun departs
I feel a hole down in my heart
Put on some shoes
Come down here
And listen to the blues
Wondering if anything will go right
Oh will you dance with me tonight?”
Dance With Me Tonight – Hugh Grant
Era apenes mais uma gelada noite na metrópole que nunca dorme. O final do inverno castigava os cidadãos e um vento forte penetrava as roupas, invadindo os ossos e tomando conta das células do organismo de cada ser humano. Como não poderia deixar de ser, apesar de estar relativamente tarde e da madrugada avançar lentamente entre a selva de pedra, as ruas estavam lotadas: carros em alta velocidade, pessoas caminhando e falando entusiasticamente, ambulâncias correndo para fazer os infindáveis resgates e eles.
Estavam relativamente alheios aos fatos externos do mundo que haviam construídos juntos. Andavam de mãos dadas, casacos bem fechados e conversavam tranqüilamente sobre aquilo que, naquele momento, só os dois entenderiam. É bem verdade que, mesmo juntos, os dois conseguiam manter suas diferenças e seus universos distintos, quase que num paradoxo inexplicável. Mas já estavam acostumados com tal cenário: no mar de pensamentos diversos, encontravam um fio para conduzir seus raciocínios e se focavam nisso.
Andavam, conversavam, observavam à paisagem que os rodeavam e seguiam para seu destino. Atravessavam ruas e grandes avenidas, sempre com passos calculados e determinação para não se perderem no meio de tantos acontecimentos citadinos daquela enorme cidade. Mas, como não eram perfeitos, de repente se pegaram presos na divisão de uma grande avenida… Sim! Os passos, daquela vez, não foram tão precisos quanto queriam e não puderam evitar aquela parada antes de atravessar mais parte de seus caminhos.
Para driblar o frio, se abraçaram fortemente e ficaram ali agarradinhos no meio de todos aqueles carros. Seus corpos juntos tinham um ritmo próprio, algo também não planejado. Pareciam dançar lentamente, mesmo que involuntariamente. Não havia trilha-sonora de fundo, não havia um motivo especial e não esperavam que alguém entendesse aquela demosntração de carinho racionalmente. Apenas seguiam seus instintos e deixavam os sentimentos se manifestar nos pequenos gestos.
Se tal cena fosse congelada, com certeza seriam conhecidos como o casal que dançou entre os carros.
“Mas não precisamos saber pra onde vamos
Nós só precisamos ir
Não queremos ter o que não temos
Nós só queremos viver
Sem motivos nem objetivos
Estamos vivos e isto é tudo
É sobretudo a lei
Dessa infinita Highway”
(Infinita Highway - Engenheiros do Hawaii)
Na infinita Highway, não é possível explicar o que se sente…
Pelo contrário, é preciso viver antes de qualquer análise e não há muito tempo para se gastar pensando e racionalizando aquilo que não se deve ser compreendido racionalmente. As emoções são mais fortes do que meras palavras e o único destino é o horizonte longínquo e belo, escondido nas entrelinhas das intensas sensações.
O dia deixa de ter 24 horas e passa a ser medido pelas noites solitárias, tristes e frias e pelas manhãs ensolaradas, quentes e inesquecíveis. Não é possível se ocultar por lá, a verdade sentimental é escancarada e a única motivação para cada novo passo é absorver, ao máximo, o efeito de cada curva, elevação ou reta.
Tudo isso numa constante busca pela felicidade e pelo aperfeiçoamento pessoal e coletivo.
“Feche a porta do seu quarto
Porque se toca o telefone pode ser alguém
Com quem você quer falar
Por horas e horas e horas”
Renato Russo
Quando o telefone toca, o coração para um mero segundo e volta a bater mais tranqüilo. As borboletas do estômago se acalmam por saber que a voz tão desejada finalmente será ouvida. A alma se expande na esperança de ser preenchida pelas palavras que o aparelho eletroacústico transmite e as células de todo o corpo são envolvidas por uma deliciosa dose de adrenalina.
Quando o telefone toca, as emoções ficam afloradas e as expressões se tornam versos da poesia interna e pessoal. Os sentidos se ligam apenas à audição e ficam à espera de um pequeno sinal de arrepio, suspiro e interação com a outra alma que, infelizmente, está longe. O tempo literalmente deixa de existir e apenas a sinceridade e a espontaneidade se tornam padrão de controle daquilo que pode ser vivenciado através de confissões verbais.
Quando o telefone toca, o espírito dói por saber que, em algum momento, a ligação acabará e a noite voltará a ficar fria e solitária. Mas, ao mesmo tempo, parece não se importar com o fim iminente daquela ligação física. Algumas horas ainda serão vividas naquela imensidão sentimental e, momentaneamente, o vício será saciado antes que a saudade consuma novamente a capacidade lógica de pensar e sentir.
Cansado.
¡Sí!
Cansado
de usar un solo bazo,
dos labios,
veinte dedos,
no sé cuántas palabras,
no sé cuántos recuerdos,
grisáceos,
fragmentarios.
Cansado,
muy cansado
de este frío esqueleto,
tan púdico,
tan casto,
que cuando se desnude
no sabré si es el mismo
que usé mientras vivía.
Cansado.
¡Sí!
Cansado
por carecer de antenas,
de un ojo en cada omóplato
y de una cola auténtica,
alegre,
desatada,
y no este rabo hipócrita,
degenerado,
enano.
Cansado,
sobre todo,
de estar siempre conmigo,
de hallarme cada día,
cuando termina el sueño,
allí, donde me encuentre,
con las mismas narices
y con las mismas piernas;
como si no deseara
esperar la rompiente con un cutis de playa,
ofrecer, al rocío, dos senos de magnolia,
acariciar la tierra con un vientre de oruga,
y vivir, unos meses, adentro de una piedra.
Oliverio Girondo
Era um desejo incontrolável… Uma vontade de estar junto, de abraçar, de beijar e de se perder em meio a um mar de sensações abstratas e confusas. As mensagens de texto não supriam mais a necessidade do contato físico e as palavras já não davam mais conta de explicar o enigmático sentimento. Era algo mais palpável e intenso do que um mero jogo de sons e significados. Então, o anseio prevaleceu sob a razão e a noite fria, mais uma vez, se tornou quente e enlouquecidamente boa.







