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“É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Dificílimo contar. Olhei pra você fixamente por instantes. Tais momentos são meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isto de estado agudo de felicidade”
Clarice Lispector
Ela perdeu o sono no meio da noite. Despertou assustada de um sonho – não sabia mais o que era! – e apenas ouviu sua respiração pesada e rápida enquanto interpretava a escuridão. Olhou para os todos os lados e, aos poucos, reconheceu o seu quarto no escuro da madrugada. Estava sozinha em sua cama e, apesar do receio de estar sem luz alguma, sentia-se protegida. Era seu quarto, era seu santuário, era o seu espaço único e especial no mundo.
Tentou reencontrar o sono, relaxou o corpo e se acomodou nos travesseiros. Mas nada adiantou – estava tão desperta como se o sol já tomasse conta do céu. Mesmo assim não se rendeu à energia de seu corpo e lembrou-se de que àquelas horas não dormidas lhe fariam falta no decorrer do dia.
Fitou o escuro e tentou não pensar em nada, afinal não queria se agitar mais. Nesse cenário, lembrou-se dos olhos dele. Ali, na escuridão de seu quarto, recordou-se daquele olhar que lhe penetrava a alma e desvendava os seus segredos mais profundos. Sentiu saudade – seu coração ficou bem pequeno -, sentiu vontade chorar, sentiu tristeza e sentiu raiva.
Aquela lembrança, não tão recente, ainda lhe provocava ambíguos sentimentos e ela sentiu-se abalada pela confusão em seu interior. Resolveu apenas fechar os olhos e cantarolou uma canção popular. Se pensaria em algo até adormecer novamente, decidiu que não seria ele quem comandaria tais pensamentos e optou por algo mais leve.
Percebeu ali, naquele singular momento, que ainda não estava pronta para lidar com tudo o que havia acontecido!
“Why don’t you
Why don’t you
Go outside
Go outside
Kiss the rain
Whenever you need me
Kiss the rain
Whenever I’m gone too long
If your lips
Feel lonely and thirsty
Kiss the rain
And wait for the dawn”
Kiss The Rain – Billie Myers

Sentada dentro do ônibus, percebeu quando a chuva começou a cair lentamente do céu nublado e totalmente cinza. Viu os pingos grossos, mas esparsos, refrescarem a quente tarde da segunda-feira. Estava protegida – não poderia se molhar de onde estava naquele momento -, mas ficou preocupada. Sabia que a garoa só pioraria e sentiu um receio por pensar na possibilidade de mudar seus planos cuidadosamente planejados durante o final de semana.
A cidade, aos pouco, começava a ficar congestionada e o ônibus diminuía a velocidade com a qual circulava por entre os carros. As pessoas, que aumentavam os passos e tingiam a cidade com o colorido de seus guarda-chuvas, se tornavam meros borrões na lógica urbana e ela observava a tudo calmamente.
As músicas que penetravam seu cérebro – fruto de seu adorado MP4 – traziam melodias amorosas e canções animadoras. Ela gostava do que ouvia, mas sabia que não era bem isso que precisava numa tarde chuvosa como aquela. Sabia que chuva remetia, diretamente, à imagem de seu amado e não queria, de jeito algum, perder essa associação.
Procurou, então, a composição adequada para a ocasião, escolheu o modo repeat e ficou ali, sentada no ônibus frio e lotado, apreciando suas lembranças, suas sensações, suas recordações, sua paixão e tudo de bom que estava relacionado a ele. Não via mais nada a partir daquele momento. Estava concentrada demais em seu interior para reparar no mundo ao seu redor.
Não sorria. Não chorava. Não expressava emoções… Contentava-se em sentir. Só isso!
Minutos depois, quando desceu do ônibus, a chuva ficou mais forte do que antes. Mesmo se protegendo com o guarda-chuva cor de rosa, ficou toda molhada – a água vinha por todos os lados e era impossível se proteger. Mas, ao invés de se irritar, ficou feliz. Esboçou um enorme sorriso em seus lábios e cantou baixinho: “Kiss the rain, Whenever you need me”.
Por algum motivo, estava feliz!
“Sentir é criar. Sentir é pensar sem idéias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem idéias”
Fernando Pessoa
“No escuro do quarto, bela na noite
Nas ondas do luar
Seus olhos negros, pantera nua
Vem me hipnotizar
Eu olho sorrindo, lindo!
Você está me convidando
Menina quer brincar de amar
Você está me convidando
Menina quer brincar…”
Noite e Dia – Lobão

Era a sua forma mais primitiva… Mais verdadeira!
Estava completamente nua, cabelos molhados pela refrescante água do chuveiro e sua alma já não possuía a menor noção de limite. Estava despida de qualquer pudor ou falsa moralidade. Era o desejo em sua forma mais pura e não negava isso. Vislumbrava, quase que numa observação sonhadora, cada pequeno detalhe daquela oportunidade única e sentia-se mais feliz do que nunca.
Não queria fechar os olhos. Pelo contrário, queria ver tudo o que se passava na intimidade deles! Gostava de reparar no encaixe de seus corpos e as formas que assumiam quando viravam um único ser. Vivia sinestesias sem fim! Sentia o gosto do beijo, a tremedeira nas pernas, a textura do lençol da cama e a pele dele tão perto dela que nem podia acreditar.
Achava que era um sonho – a iluminação azul propiciava um ambiente surreal, mas extremamente aconchegante – e, mentalmente, apenas pedia para não acordar jamais. Se fosse um sonho, queria ficar eternamente ali. Se fosse verdade, anularia o resto do mundo, jogaria fora a chave da suíte e apenas brincaria de amá-lo para todo o sempre.
Era sentimental demais para fugir daquilo que seu coração já havia determinado muito antes de perceber e, naquele estágio de sua vida, havia desistido de lutar contra o universo. Aproveitava as oportunidades conforme estas apareciam, mesmo que fossem apenas em deliciosos sonhos no começo de uma semana louca.
“Tão bom morrer de amor e continuar vivendo”
Mário Quintana
“I need some love like I never needed love before
Wanna make love to ya baby
I had a little love, now I’m back for more
Wanna make love to ya baby
Set your spirit free, it’s the only way to be”
2 Become 1 – Spice Girls

Era uma luz azul na intensidade correta – nem tão clara não tão escura. O quarto – a suíte 22 do hotel – podia ser amplamente percebido, mas alguns detalhes ficaram camuflados, subentendidos apenas nas sensações. Era o ambiente adequado para aquele momento, até mesmo por causa de uma ansiedade inicial.
O espelho no teto – um elemento intimidador no começo da noite – havia se incorporado à trama romântica da história e era, naquele exato momento, um confidente no quarto semi-iluminado pela luz azul. Olhavam carinhosamente o reflexo dos dois e apenas sorriam – seus corpos nus eram apenas uma pintura a decorar a paisagem que contemplavam.
Não falavam nada – segundo ele, em momentos assim, é melhor não falar nada… Sentiam a deliciosa vibração do ambiente, enquanto dividiam pequenas carícias e algumas rápidas confissões. Compartilhavam o lençol, o suor, a saliva, as lágrimas, a água do chuveiro, o beijo, o toque. Reviviam um sentimento adormecido, mas intenso e devastador.
Era quase um sonho de tão bom, basicamente um delírio naquele começo de semana. A ansiedade dela havia dado lugar a uma deliciosa cumplicidade que contornava os diferentes planos sensoriais. Divertiam-se com a louca oportunidade de sentir e de viver longe da realidade conhecida.
Fingiam que não havia nada de errado fora daquele quarto e apenas deixavam a deliciosa sensação de prazer percorrer por cada parte de seus corpos. De alguma forma, estavam felizes e realizados.
“Celebrar o fogo sagrado é ter cumplicidade em cada toque trocado com a pessoa amada.”
Nathalia Wigg
“Lembrava-se de tudo, porque jamais conseguiria esquecer”
Alessandro Baricco em Esta História

A noite estava escura e ela sabia que os olhos de teu passado a condenavam. Andava pelo frio da madrugada, sentia o vento passar por sua pele e via seus pensamentos flutuarem por entre as nuvens pesadas no céu negro.
Recordava-se de tons, sons, cheiros, texturas e dos sentimentos relacionados. Não sentia culpa e nem saudades… Entendia que tudo aquilo se distanciava do seu atual eu e apenas lembrava-se.
Era mulher – sentia-se como uma, pela primeira vez em sua vida – e não descartava a sua essência de menina! Preferia apenas viver um passo de cada vez!
“What do I do to ignore them behind me?
Do I follow my instincts blindly?
Do I hide my pride behind these bad dreams
And give into sad thoughts that are maddening?
Do I sit here and try to stand it?
Or do I try to catch them red-handed?
Do I trust some and get fooled by phoniness?
Or do I trust nobody and live in loneliness?
Because I can’t hold on when stretched so thin
I make the right moves but I’m lost within
I put on my daily façade but then
I just end up getting hurt again”
(By Myself – Linkin Park)

Ela caminhava rumo a sua casa. Voltava do shopping center no final daquela tarde de sábado e observava o dia virar noite enquanto dava cada pequeno passo na calçada semi-nova. Estava tão absorta em seus próprios pensamentos que nem precisou ligar o aparelho de música. Preferia ouvir seus próprios sentimentos sussurrados no vento para poder entender melhor aquilo que se passava em seu coração.
Sentia-se sozinha naquele mar de pessoas. Aos pouco, tinha perdido sua fé e não acreditava mais que existia uma única alma boa naquela humanidade podre, triste e vazia. Não tinha vontade de chorar, porque achava que lágrimas não a salvariam – tinham matado o pouco que sobrava de seus instintos e a transformaram numa máquina programada para sorris independente da situação.
Estava tão focada em seus dilemas internos que nem viu quando trombou com um senhor, um trabalhador do estacionamento do Hospital do Coração. Ele, que também estava concentrado em seu trabalho, parou por um minuto e a encarou. E, enquanto estampava um sorriso em seu rosto, apenas disse:
- Vá com Deus, minha filha!
Ela, que inicialmente tinha se zangado com a interrupção em seu caminhar, parou também e retribuiu o sorriso. Pensou que poderia ter sido confundida com alguém que também trabalhava no estabelecimento, mas resolveu apenas agradecer:
- Muito obrigada… Muito obrigada mesmo!
Encarou o senhor por alguns breves segundos e continuou a caminhar. Estava mais leve e mais feliz. Um sorriso sincero e verdadeiro tomava conta de seus lábios e derrubou uma lágrima, que ecorreu por todo seus rosto. De alguma forma, sabia que ia ficar bem e que, no fundo, aquela só será uma fase difícil.


