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Cena 7.543 = Perdida em Sua Alma
“Save me now
From the depth of my infatuation
I could drown
In the sea of love and isolation
I’ll take you down
If you just save me now”
Save Me Now – Andru Donalds
Estava tão perdida em sua alma que já não conseguia voltar. Estava no fundo de seu ser – lá no escuro inexplorado por qualquer ser humano em sã consciência. Não sabia como havia chegado lá, apenas habitava aquele espaço pequeno e solitário há algum determinado tempo.
Cotidianamente vestia uma máscara social e, para isso, normalmente fingia que estava tudo bem. Estampava um falso sorriso em seu rosto, agradava aos mais próximos, dava conselhos para os problemas alheios e sempre usava frases falsamente otimistas. Parecia forte, guerreira e determinada, mas isso tudo não passava de uma mera mentira.
Não dormia direito, tinha pesadelos aterrorizantes e totalmente reais. Acordava já com vontade de gritar, mas não conseguia. Sua voz estava sempre presa no fundo de suas entranhas. Sentia uma forte dor pelo corpo, sabia que sua alma se despedaçava lentamente e simplesmente não conseguia fazer nada para se sentir bem.
Descontava todas as suas frustrações e medos na comida – comia mais do que nunca, sempre estava com fome e engordava mais do que nunca. Sombriamente parecia saudável e, por isso mesmo, constantemente ouvia longos discursos de como estava acabando com seu corpo e com sua saúde.
Não conseguia contar os seus segredos – havia criado raízes tão internas que simples palavras não podiam expressar o que sentia. Às vezes, vomitava uma declaração aqui e outra ali, mas nada demais ou tão sério. Tentava falar algumas verdades usando ironias e brincadeiras e sempre enganava seus interlocutores.
Na verdade, pedia ajuda, mas ninguém conseguia ouvi-la. Estava fundo demais!
“A loucura é uma ilha perdida no oceano da razão”
Machado de Assis
Vazio
A noite é como um olhar longo e claro de mulher.
Sinto-me só.
Em todas as coisas que me rodeiam
Há um desconhecimento completo da minha infelicidade.
A noite alta me espia pela janela
E eu, desamparado de tudo, desamparado de mim próprio
Olho as coisas em torno
Com um desconhecimento completo das coisas que me rodeiam.
Vago em mim mesmo, sozinho, perdido
Tudo é deserto, minha alma é vazia
E tem o silêncio grave dos templos abandonados.
Eu espio a noite pela janela
Ela tem a quietação maravilhosa do êxtase.
Mas os gatos embaixo me acordam gritando luxúrias
E eu penso que amanhã…
Mas a gata vê na rua um gato preto e grande
E foge do gato cinzento.
Eu espio a noite maravilhosa
Estranha como um olhar de carne.
Vejo na grade o gato cinzento olhando os amores da gata e do gato preto
Perco-me por momentos em antigas aventuras
E volto à alma vazia e silenciosa que não acorda mais
Nem à noite clara e longa como um olhar de mulher
Nem aos gritos luxuriosos dos gatos se amando na rua.
Vinícius de Moraes
O Tempo
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
Mário Quintana
Hora após hora vejo os sonhos se despedaçarem diante da realidade. A noite mal-dormida se torna motivo para tristeza, mal-humor e uma certa dose de baixa auto-estima. O relógio não pára – pelo contrário anda cada vez mais rápido. Oportunidades são deixadas para trás e escolhas são feitas. Sorrisos viram lágrima e a dor no fundo da alma é escondida num sono fora de propósito.
A amizade vira um simples som no fundo do telefone e o e-mail tão esperado é direto – sem floreios, frio e sem mágica alguma. O sorvete no final da tarde não chega a ser degustado (o paladar quase nem existe mais) e a água parece ser a solução para resfrescar o dia realmente quente. A nota nove é anunciada sem o menor suspense e um ciclo de cinco anos, muito carinho e algum aprendizado finalmente se encerra.
Tudo isso em menos de 24 horas…
“A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas”
Mário Quintana
Dia desses, olhei a Avenida Paulista e reparei os primeiros vestígios de decoração de natal. Assim como muita gente, me assustei. Achei que os bancos e shoppings tinham sido apressados e buscavam apenas uma desculpa comercial para adiantar as vendas e conseguir mais lucro. Mas não! De repente percebi que o ano está realmente acabando.
Na última terça-feira, dia 24, por exemplo, foi meu último dia de estágio docente lá na Faculdade Cásper Líbero. Fiz 50 horas de estágio, acompanhei as aulas do Luís Mauro por um semestre todo e, ao mesmo tempo, nem senti o tempo passar. Não sei se estava imersa em problemas demais ou se, simplesmente, me divertia tanto. Mas confesso que me assustei em saber que estava terminando.
Não sei! Foi estranho começar o meu último dia de estágio encontrando o Moacyr Franco pelos corredores casperianos. Na verdade foi tão lúdico! E a última aula foi boa – inspiradora e animadora. Ajudei o LM no sorteio de alguns livros e percebi a total sintonia entre o que estudo no meu mestrado e aquilo que acompanhei nos últimos meses nas aulas do meu querido e eterno orientador.
Depois disso, o resto do dia foi, basicamente, a tomada de consciência de que o fim de ano está realmente próximo. Na disciplina de processo de criação, o conteúdo começa a se esgotar e estamos realmente na fase de fechamento – as conclusões e tudo mais. Não sei! É tão estranho… Eu lembro quando começou e não parece ter sido a tanto tempo assim.
Só faltou eu implorar para ter mais uma aula, numa semana de Dezembro, só para não terminar tão cedo o ano. Sabe, tenho problemas para lidar com finais e, com 2009, não está sendo muito diferente. Perceber isso me deixou tão transtornada. Me senti sem chão…
Enfim, no final da noite, após um e-mail ousado e um telefonem carinhoso, derrubei algumas lágrimas ao som de Faith do George Michael:
“Before this river becomes an ocean
Before you throw my heart back on the floor
Oh baby, I reconsider my foolish notion
Well, I need someone to hold me,
But I’ll wait for something more.
‘Coz I gotta have Faith
I gotta have… Faith
Yes, I’ve gotta have Faith, Faith, Faith
I gotta have Faith, Faith, Faith”
“É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Dificílimo contar. Olhei pra você fixamente por instantes. Tais momentos são meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isto de estado agudo de felicidade”
Clarice Lispector
Ela perdeu o sono no meio da noite. Despertou assustada de um sonho – não sabia mais o que era! – e apenas ouviu sua respiração pesada e rápida enquanto interpretava a escuridão. Olhou para os todos os lados e, aos poucos, reconheceu o seu quarto no escuro da madrugada. Estava sozinha em sua cama e, apesar do receio de estar sem luz alguma, sentia-se protegida. Era seu quarto, era seu santuário, era o seu espaço único e especial no mundo.
Tentou reencontrar o sono, relaxou o corpo e se acomodou nos travesseiros. Mas nada adiantou – estava tão desperta como se o sol já tomasse conta do céu. Mesmo assim não se rendeu à energia de seu corpo e lembrou-se de que àquelas horas não dormidas lhe fariam falta no decorrer do dia.
Fitou o escuro e tentou não pensar em nada, afinal não queria se agitar mais. Nesse cenário, lembrou-se dos olhos dele. Ali, na escuridão de seu quarto, recordou-se daquele olhar que lhe penetrava a alma e desvendava os seus segredos mais profundos. Sentiu saudade – seu coração ficou bem pequeno -, sentiu vontade chorar, sentiu tristeza e sentiu raiva.
Aquela lembrança, não tão recente, ainda lhe provocava ambíguos sentimentos e ela sentiu-se abalada pela confusão em seu interior. Resolveu apenas fechar os olhos e cantarolou uma canção popular. Se pensaria em algo até adormecer novamente, decidiu que não seria ele quem comandaria tais pensamentos e optou por algo mais leve.
Percebeu ali, naquele singular momento, que ainda não estava pronta para lidar com tudo o que havia acontecido!





