Cena 4.001 = Coincidência? Acho que Não!


“Eu que não fumo, queria um cigarro
Eu que não amo você
Envelheci dez anos ou mais
Nesse último mês
Eu que não bebo, pedi um conhaque
Pra enfrentar o inverno
Que entra pela porta
Que você deixou aberta ao sair…”

Eu Que Não Amo Você – Engenheiros do Hawaii



Era muito cedo para ir para a pós-graduação, mas não estava com a mínima vontade de ficar em casa. Não podia voltar a deitar, apesar do claro cansaço, sentia que atrapalhava a faxineira e a tela de computador a sufocava compulsivamente. Resolveu, então, sair. Pretendia comprar um novo mouse pad e ainda procuraria um lugar gostoso e diferente para poder almoçar antes de assistir à aula.

Entrou no ônibus rumo a uma grande papelaria e, contrariando seu senso de dever, resolveu observar um pouco a paisagem urbana. Ao invés de ler algum livro ou re-analisar seu projeto de pesquisa, olhava para os carros parados na Avenida Paulista, os pedestres caminhando nas calçadas lotadas e a vida que, de alguma forma, se desenrolava no meio de todo aquele cimento.

Diante do prédio familiar e tão importante em sua história, sentiu o coração acelerar. Achou que era só mais uma bobagem sentimental, fruto de uma conversa do dia anterior. Mas não, não era bobagem. Era apenas mais uma coincidência da vida! Reconheceu os cabelos levemente arrumados, a roupa, o jeito de andar, o sorriso leve e, desde o início, teve a certeza de que era ele.

Desviou o olhar e tentou não pensar mais no assunto. Era muita injustiça que aquilo tivesse realmente acontecido: encontrá-lo por acaso bem quando, finalmente, estava tocando sua vida e superando aquele louco sentimento que tinha vivido nos últimos meses. Não podia acreditar nisso!

Olhou para todos os cantos do céu ensolarado e esperou uma resposta de Deus. Só Ele poderia explicar para ela o porquê de tal fato ter acontecido bem naquele dia. Mas não viu nada e nem recebeu nenhum sinal. O céu continuou azul com o sol forte a contrastar com o vento gelado.

Desistiu de tudo o que estava planejando e, depois de verificar que o McDonald’s estava cheio demais, se enfiou numa das cabines solitárias do Bob’s. Se recolheu a sua insignificante e solitária existência enquanto devorava um Double Cheeseburger e algumas batatas-fritas.

Mal sabia que, algumas horas depois, uma borboleta amarela cruzaria seu caminho!


“As pessoas entram em nossa vida por acaso, mas não é por acaso que elas permanecem”

Lilian Tonet