Cena 3.058 = Overdose de Alergia
Enfermeiro: – Você está assustada?
Ela: – Por quê? Parece?
Enfermeiro: - Parece sim!
Ela: – Acho que estou com um pouco de medo de sim!
Enfermeiro: - Não precisa se preocupar com isso! Só vou tirar o ar da seringa para não lhe causar problema no sangue.
Ela: – Mas não é isso que está me deixando assustada. Foi a situação toda!

Era para ser uma típica noite de domingo para segunda. Após terminar de navegar pela internet e ajudar a mamãe a resolver alguns problemas da casa, ela resolveu se deitar. Ia ler um pouco para esperar o sono chegar, mas resolveu apenas deitar-se confortavelmente em sua cama e ver algumas reprises de seriados norte-americanos.
Uma hora depois, estava mais acordada do que nunca e sua crise alérgica piorava a cada novo minuto. Foi, então, a cozinha e tomou alguns comprimidos de anti-histamínico. Voltou a deitar-se e acreditou que, naquele momento, conseguiria finalmente descansar.
Uma hora mais tarde, continuava acordada e muito mal da alergia. Voltou a cozinha, tomou mais alguns remédios, fez um lanchinho básico da madrugada e resolveu ficar navegando na internet à procura de seu sono. Não demorou muito e seu corpo começou a ficar pesado e seus olhos não conseguiam ficar abertos muito tempo.
Contente por causa da boa sensação – sabia que finalmente ia dormir -, desligou tudo e se deitou pronta para uma boa e relaxante noite de sono. Mas havia algo de diferente: seu coração estava muito acelerado, tinha dificuldades para engolir, precisava pensar muito para respirar pela boca e sentia sua língua e garganta cada vez maiores.
Sentou-se um pouco na cama e, levemente tonta, achou melhorar esperar. Poderia ser apenas uma sensação ruim, algo que passaria rápido. Mas, a cada minuto, ficava mais difícil de respirar e de engolir, o coração estava acelerado demais e começava a ficar com a sensação de que ia desmaiar. Assustada, correu até o quarto da mãe e explicou o que estava acontecendo.
A mãe, preocupada com uma possível overdose de anti-histamínicos, acordou a filha mais velha e o genro e logo montou um esquema: precisaria ir para o ponto-socorro. Desconfiava de um mix de alergia e excesso de remédios e tinha medo de uma possível parada respiratória.
No curto tempo até todo mundo se vestir e conseguirem chegar ao hospital, a mãe a manteve acordada – algo MUITO difícil, afinal ela tinha induzido o seu próprio sono com alguns comprimidos.
Chegando ao pronto-socorro às 4h00 da manhã, encontraram-no vazio e essa foi a sorte delas. Após fazerem a fichinha de entrada, já foram encaminhadas para a enfermaria. O médico a consultou ali mesmo, mediu seu batimento cardíaco e constatou que aquilo era apenas uma crise MUITO forte de alergia e não uma overdose de remédio como a mãe suspeitava! Decidiu dar corticóide intravenoso e esperar para ver o que aconteceria.
Três horas depois, três soros com corticóides depois e algumas dores por ficar sentada TANTO tempo na mesma poltrona, ela foi liberada! Deveria continuar com a medicação em alta quantidade para conter a crise que se alastraria pelos próximos três dias e devia fazer descanso.
Mas ela passaria os próximos com uma sensação ruim. Um medo de dormir e não perceber que a sua garganta estava fechando. Um receio de se perder e não conseguir voltar a sua vida a tempo. Em parte, ela tinha ficado com medo da morte que, pela primeira vez, se mostrou muito simples e próxima a ela.
“O maior erro que um homem pode cometer é sacrificar a sua saúde a qualquer outra vantagem”
Arthur Schopenhauer

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